Apresentação do livro "Sob o Amor", do poeta Antônio Mariano

“Sob

Veio parar-me às mãos, estes dias, um exemplar do livro "Sob o Amor" de Antônio Mariano, poeta brasileiro com quem me cruzei virtualmente, há uns anos, num daqueles felizes acasos da vida. Ao autor, agradeço o presente que, como veremos, muito me agradou. Aos leitores, sobretudo àqueles que não gostam de perder um bom livro de poesia, tentarei aguçar o apetite com alguns apontamentos breves da minha leitura.

O livro surge com uma excelente apresentação gráfica. Na capa, encontramos uma ilustração de Leonardo Mathias que, diria eu, combina muito bem com a poesia de Antônio Mariano. A acolher o leitor, há um pequeno e útil prefácio de Amador Ribeiro Neto, que resume e interpreta alguns dos traços da poesia de Antônio Mariano. Na contracapa, podemos ler um dos poemas que compõem a obra, que poderia servir de mantra para tantos tantos aspirantes ao ofício da Poesia ("Nem todo amante deverá ser poeta"). Partindo desta frase que quase poderia ser lida como um aviso à navegação, o poeta explica que "convém ser profeta / e forjar o inusitado instante da desrazão". Ao ler e reler este poema, não consigo deixar de recordar a célebre "Autopsicografia", em que Pessoa também fez questão de clarificar o papel do Poeta.

Após este excelente primeiro contacto, damos início à leitura e deparamo-nos com uma imagem deveras chocante: "Sob chuva / apaguei os faróis / na estrada do amor". O sujeito poético, desde logo, traça de certo modo um autorretrato em ação, de alguém que vê o amor como um estado de quase loucura em que o perigo e o risco são uma presença constante.

Ao nível formal, podemos observar uma certa diversidade: o poeta combina de forma extremamente hábil o poema livre com algumas das estruturas clássicas, como sejam o haicai ou o soneto. Os poemas de Antônio Mariano tendem a ser breves, incisivos e com imagens que sugerem mais do que dizem.

A temática dominante é o amor, em suas múltiplas vertentes, mas com uma certa tónica na sensualidade, nos encontros e desencontros, e na difícil relação com a pessoa amada. Em certos trechos, a temática do amor e da sensualidade revestem-se de uma roupagem de cariz religioso. O sujeito poético evoca Sísifo e dirige-se à deusa grega Ceres e a Janaína (alusão ao candomblé). E encontramos também uma série de expressões e termos emprestados da ritualística religiosa: "procissão", "inquisição", "bendita entre as fêmeas", "rictus pré-histórico", "a liturgia dos invertebrados". Não nos iludamos - esta alusão ao sagrado não perde de vista o foco num amor sensual, arriscado, irónico e, claramente, profano. A linguagem dos corpos está sempre presente:

"Deixasse que nossos corpos / se entregassem à sua diplomacia, / e estaria convencida de quanto a quero"


"amor... descodificado em braille"


"Nua és um comício"


"Pênis sem vagina / ou fiel sem templo"


O poeta consegue forjar a cada passo o inusitado instante da desrazão, parafraseando as suas palavras já antes mencionadas.

E, claro, se dúvidas houvesse quanto ao lugar das teorias e da razão:

"Quando se vai amar / as teorias fora do quarto"


Para o sujeito poético, "Quem não ama é livre", mas ainda assim parece preferir à liberdade as "algemas / compradas a peso de ouro" do amor.

O tema do desejo e da separação surge também de forma dolorida:

"Nesse palmo único / imposto entre nossas bocas / quantos anos-luz?"


"De ti para mim / a certeza de que não sou / teu príncipe"


A separação não é necessariamente uma fatalidade sem regresso:

"Quando me deixares / nem tudo estará acabado"


"Quem de vocês me intimida / agora que tenho o absinto / e a liberdade de não ser feliz?"


Mas é ainda assim motivo de vazio, de sofrimento e até revolta:

"Sem você, ingrata / e seu corpo inacessível / viver não é mais que um engulho, / novelinhos de agonia"


A loucura a que parece conduzir a separação chega a se condensar numa enraivecida e, de certo modo, inesperada, sede de vingança "a faca no peito". Aliás, esta dialética amor-ódio, ou desejo-ódio está presente noutros poemas, como por exemplo numa passagem que diz assim:

"Ah submarina sede / não menos linda / de torcer-lhe o pescoço"


O que inevitavelmente nos remete para o título paradoxal de um dos livros anteriores ("Te odeio com doçura").

Em "Sob o amor" não falta até uma relação intertextual com os mestres clássicos, que chega a ser explícita, por exemplo, nos sonetos "Se eu fosse Luís de Camões" e "Me chamam Dante Alighieri". Tal não é dizer, contudo, que a sua menção seja forçada ou uma homenagem avulsa e vazia. Pelo contrário, o sujeito poético dirige-se à "menina dos olhos verdes" para lhe dizer o que Camões nunca diria: "convém dizer não / àquela que não nos vê / menina dos olhos verdes / e nenhuma esperança". Ou seja, os temas clássicos são revisitados à luz de uma experiência contemporânea que não está presa a cânones mesmo quando se expressa sob a forma das formas do classicismo, que é como quem diz, o soneto.

Aqui e ali, uma linguagem quase telegráfica comunica o poema deixando as imagens ganhar forma na mente do leitor de uma forma gradual e criativa:

"Boca ensanguentada / de batom, palavra amor / sol, vertigem rápida"


Um geometrismo simplificado que consegue transparecer uma ação sem recurso a verbos, talvez porque a narrativa subjacente seja demasiado dolorosa para ser objeto de relato, ou porque simplesmente o poema não precisa de mais palavras do que as que são, efetivamente, estritamente necessárias. Essa noção de equilíbrio, de contenção, o limar das frases até ao limiar de uma expressão molecular (mas sempre aberta a leituras múltiplas e diversas) parece ser uma constante da linguagem poética do Autor. E não é, afinal, esse o permanente ofício do poeta?

Em Antônio Mariano, o amor é tratado com a frontalidade adulta que merece uma sensualidade humana e complexa. Isso não impede que o poeta retrate a dada altura uma personagem (estivador) que esperaríamos, porventura, mais dada à prosa quotidiana de um dia-a-dia duro e rústico. Se bem que mesmo aí o resultado nos consegue surpreender, seja por um certo reperspetivar a modo de pintura cubista, seja por um humor omnipresente, como por exemplo num certo poema que começa assim:

"o sexo da princesa / cheirava a queijo do reino"


Parece que vem aí uma tirada rude e brejeira, mas não vem. Em vez disso, temos um texto elegante que começa por sugerir esta sensação de rudeza mas que acaba afinal numa imagem diametralmente oposta.

Apesar de a presente obra resultar do cruzamento dos livros anteriores do autor, e destes com outros textos dispersos ou inéditos, há uma convergência temática que se estende ao longo de todo o volume.

Não querendo fazer deste comentário um longo e entediante "spoiler", será preferível poupar o leitor à enumeração de todos os aspetos interessantes deste livro. Cada leitor, estou certo, encontrará motivos de sobra para considerar prazerosa e enriquecedora a leitura, tanto pela multiplicidade de interpretações que grande parte dos poemas permitem, como pela voz clara e despretensiosamente eloquente do sujeito poético, como pelo humor refinado que se encontra de página a página.

Para já, creio que o livro está à venda apenas no Brasil, podendo por exemplo ser encomendado diretamente junto da editora Patuá. Ainda não existe versão digital do livro, o que é uma pena, já que seria uma forma simples de facilitar o acesso a leitores de outros pontos do globo. No entanto, de acordo com o autor, poderá estar para breve a publicação desta e outras obras suas em e-book.