No país dos poetas

À memória de
Sophia de Mello Breyner Andresen,
que completaria hoje 95 anos

“Praia

Nos dias que correm, ler é considerado uma traição, um ato tão inútil quanto desrespeitador da ordem pública e dos bons costumes. Ler é um ultraje que ofende os mais elevados e nobres preceitos morais, que estipulam que há uma hora certa para começar a trabalhar, que há uma hora certa para acordar, que há uma hora certa para atender às imperiosas necessidades fisiológicas da nossa fraqueza humana, que há uma hora certa para comer, para beber, para urinar e defecar, e todas essas coisas que têm por força de ser feitas, que há uma hora certa para falar - e muitas mais horas certas para ficar calado -, uma hora certa para lavar os pratos ou varrer o chão, uma hora certa para sacudir tapetes e fazer a cama e lavar a roupa, uma hora certa para trazer à luz os filhos que hão de ser da pátria e do mundo mais do que nossos, uma hora certa para ouvir, uma hora certa para assistir a programas medíocres de televisão ou ao tédio bem disfarçado de um qualquer jogo de futebol, uma hora certa para acatar e aceitar e suportar e assimilar, uma hora certa para pagar, uma hora certa para dormir até à hora certa de acordar outra vez para repetir todas as laborações ditadas pela rotina diária das pessoas de bons costumes e de decência comprovada.

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A minha primeira "manif" - ou de como, realmente, "o sonho comanda a vida" #15SPT


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Na foto: manifestação de 15 de setembro de 2012, em Braga (foto de Rómulo Duque)


Há uns vinte ou vinte e poucos anos, estávamos nos inícios da saudosa década de 90, tive a oportunidade de participar pela primeira vez num movimento cívico de intervenção, que culminaria com a realização de uma
manif lá na escola.

Lembrei-me disto, naturalmente, a propósito da megamanifestação que hoje teve lugar um pouco por todo o País. Na altura, como agora, isto das manifestações surgia quase espontaneamente, a partir de uma certa ingenuidade nossa, mas também de um espírito jovem, revolucionário ou sonhador…
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Adeus a um amigo


Nota: ler somente depois de escutar,
a modos de prelúdio musical,
a faixa “
Dia dor-mente”: Dia dor-mente

e de repente parece que tanto ficou por dizer, tantas coisas ficaram por fazer, para nunca mais. parece hipócrita, e talvez até seja… na cidade somos tantos tantos tantos e temos sempre tanto tanto tanto por fazer e nem sequer nos apercebemos de como todos os dias a todo o momento deixamos a vida escapar-nos por entre os dedos e com ela por entre eles todos os sonhos por que afinal valia a pena lutar. porque é isso que tu eras – os sonhos. porque é isso que serás a partir de agora para todos nós que te vimos partir: os sonhos.

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A minha primeira experiência como poeta - a escrita como prostituição

Se me perguntarem quando foi que escrevi o meu primeiro poema, há uma recordação antiga que de imediato me ocorre. Não sei se terá sido mesmo a minha primeira experiência, mas foi uma que nunca mais esquecerei. E, para alguém que uns anos mais tarde viria a encarar a escrita de forma bem mais séria, creio que se tratou de um começo, no mínimo, atribulado…

Pintura de cena sexual, em Pompeia
Na foto: pintura de cena sexual, em Pompeia (fonte: Wikipedia)

Há vinte e poucos anos, andava eu na escola primária e teria uns oito ou nove anos, tivemos uma visita programada da rádio local. Soubemos com alguma antecedência, pela nossa professora, que a Rádio Valdevez vinha à escola gravar um programa, e nós íamos participar, com as nossas vozes e com os nossos trabalhos. Foi uma excitação geral! Ler mais...