A minha primeira experiência como poeta - a escrita como prostituição

Se me perguntarem quando foi que escrevi o meu primeiro poema, há uma recordação antiga que de imediato me ocorre. Não sei se terá sido mesmo a minha primeira experiência, mas foi uma que nunca mais esquecerei. E, para alguém que uns anos mais tarde viria a encarar a escrita de forma bem mais séria, creio que se tratou de um começo, no mínimo, atribulado…

Pintura de cena sexual, em Pompeia
Na foto: pintura de cena sexual, em Pompeia (fonte: Wikipedia)

Há vinte e poucos anos, andava eu na escola primária e teria uns oito ou nove anos, tivemos uma visita programada da rádio local. Soubemos com alguma antecedência, pela nossa professora, que a Rádio Valdevez vinha à escola gravar um programa, e nós íamos participar, com as nossas vozes e com os nossos trabalhos. Foi uma excitação geral!

Alguns de nós - ou todos, já não me recordo bem - ficamos encarregues de escrever alguns textos para o programa. Eu escrevi dois textos em verso, cada um deles cerca de uma página de quadras, com rimas mais ou menos improvisadas. Um dos textos era talvez uma espécie de ladainha a louvar a senhora Rádio, e o outro (cuja escrita eu tinha apreciado bem mais) era uma reflexão sobre o tema "Ser criança…". Na altura, embrenhei-me nessa tarefa, levando-a até bastante a sério. O poema "Ser criança…" era um dos trabalhos favoritos para o programa e eu estava satisfeitíssimo com o resultado. Não por apreciar particularmente o facto de ser então eu mesmo uma criança, mas porque de alguma forma o meu trabalho parecia fazer jus à minha sensibilidade estética.

Entretanto, um colega de outro ano comentou na aula que lhe parecia ter ouvido aquilo já algures. Nessa altura, eu devia ter ficado fulo, mas não fiquei: simplesmente reagi com uma ingénua estupefação. Reconheço, claro, que nem os temas abordados nem a forma como os trabalhei seriam propriamente o culminar de um episódio de extrema originalidade. Mas, obviamente, eu sabia que não tinha plagiado ninguém. Olhando agora para trás, creio adivinhar ao fim de mais de duas décadas que talvez esse meu colega tenha ouvido a versão musicada de um célebre poema de Florbela Espanca ("Ser poeta é ser mais alto…"), pelos Trovante, que fez furor mais ou menos por essa altura. Talvez o meu texto lhe tenha soado familiar por esse motivo, imagino eu…

O certo é que a professora não quis correr riscos e, basicamente, o meu texto preferido passou à história. Acabaria por ser gravada no programa aquela outra lengalenga que eu escrevera, mas que não me dizia nada.

Sei que ninguém teve más intenções. Nem o meu colega, nem a professora, nem eu, nem os senhores da rádio. Mas a verdade é que naquele momento me senti, pela primeira vez na vida, de uma forma desagradável e difícil de esquecer, prostituído na minha escrita.