A minha primeira "manif" - ou de como, realmente, "o sonho comanda a vida" #15SPT


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Na foto: manifestação de 15 de setembro de 2012, em Braga (foto de Rómulo Duque)


Há uns vinte ou vinte e poucos anos, estávamos nos inícios da saudosa década de 90, tive a oportunidade de participar pela primeira vez num movimento cívico de intervenção, que culminaria com a realização de uma
manif lá na escola.

Lembrei-me disto, naturalmente, a propósito da megamanifestação que hoje teve lugar um pouco por todo o País. Na altura, como agora, isto das manifestações surgia quase espontaneamente, a partir de uma certa ingenuidade nossa, mas também de um espírito jovem, revolucionário ou sonhador…

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Estávamos no 5º ou 6º ano, que é como quem diz, tínhamos todos os nossos dez ou onze aninhos. Estudávamos numa escola que parecia estar a cair de velha e que, além de acusar o peso da idade, no inverno era fria que se fartava. De tal maneira que quem acabou por se fartar daquilo fomos nós. Era o frio que entrava pelas salas adentro, eram as pingas a cair quando chovia, eram as paredes que abanavam como se fossem cair quando lhes tocávamos… era a pintura, branca e amarela, suja das patadas acumuladas e do caruncho… e reza até a lenda que, um dia, a meio de uma aula, chegou a cair pelo teto abaixo um aluno que tinha ido ao telhado tentar recuperar uma bola!

Mas o frio era, sem dúvida, um dos nossos principais motivos de queixa. Queixávamo-nos aos professores, claro está, que eram os nossos únicos interlocutores com o
sistema. A maior parte deles encolhiam os ombros (mentalmente, claro está) e continuavam a dar as suas aulas, evitando desperdiçar tempo com temas como aquele. Mas havia uma ou outra exceção. E tivemos felizmente alguém que nos disse qualquer coisa do tipo:

– Eh, pá! Se vocês não estão contentes com esta escola, se querem uma escola nova, então façam uma manifestação. Recolham assinaturas, façam uns cartazes, lutem pelos vossos sonhos!

As palavras não seriam bem estas, mas nas nossas cabeças era isto que ouvíamos. E rapidamente a coisa começou a ganhar contornos. Houve reuniões de preparação, criámos uma série de cartazes, reunimos assinaturas de todos os delegados de turma da escola, a formalizar o apoio à nossa causa, e fizemos uma manifestação em frente à porta do Conselho Diretivo (era assim que se chamava na altura).

– Queremos uma escola nova! Queremos uma escola nova! – eram as nossas palavras de ordem.

Ai, se os nossos pais soubessem o que andávamos a fazer na escola!… Para muitos de nós, este ato de rebeldia podia vir a sair-nos bem caro, mas que importava?

– Queremos uma escola nova! Queremos uma escola nova!

Como da direção da escola ninguém se dignava a dar-nos uma resposta satisfatória – e também... que haviam eles de dizer, não é mesmo? – decidimos encaminhar-nos para a frente da Câmara Municipal, para aí expressar as nossas reivindicações. Começámos, pois, a dirigir-nos para o portão da escola, onde a nossa marcha acabaria sendo barrada, naturalmente, pelo porteiro. Naquele tempo usávamos uns cartões em que os encarregados de educação especificavam quais os dias da semana e os horários em que estávamos autorizados a sair da escola. Como a maior parte de nós não tinha autorização para sair àquela hora, tivemos de parar ali mesmo, em frente à cara de indiferença do nosso zeloso porteiro.

Mas não podíamos deixar essa afronta sem resposta, pelo que, durante os longos minutos que se seguiram, as palavras de ordem passaram a ser outras:

– Liberdade! Liberdade! Liberdade!

A manifestação acabou ali mesmo, junto ao porteiro. Na altura, sentimo-nos humilhados, enxovalhados, completamente menosprezados por um sistema injusto, prepotente e opressor. A nossa luta parecia ter sido em vão, e ainda por cima acabava de forma tanto ou mais precoce do que seria a nossa idade para participar nessas coisas.

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Poderá ter sido coincidência ou uma obra do destino, mas a verdade é que, passado um ou dois anos, começaram as obras para a construção de uma escola nova. Quando foi inaugurada e os antigos edifícios foram demolidos, nós já andávamos no 8º ou 9º ano, numa outra escola, ali mesmo ao lado. Não pudemos, por isso, usufruir diretamente daquilo por que havíamos lutado com genuína convicção. Mas, mesmo assim, sentimos que tínhamos cumprido um dever e que, de algum modo, a nossa iniciativa tinha dado frutos. Os nossos irmãos mais novos, os nossos vizinhos e as gerações vindouras podiam agora estudar numa escola maior, onde não chovia nem fazia frio no inverno.

Percebemos nessa altura (mesmo sem conhecer ainda o célebre poema de António Gedeão) que, efetivamente, “o sonho comanda a vida, / que sempre que um homem sonha / o mundo pula e avança / como bola colorida / entre as mãos de uma criança”.