Victor Domingos

Um livro meu nas redes de pirataria

É preciso calar o monólogo
No rescaldo da Semana do Livro Digital, chegou-me hoje a surpreendente notícia de que, aparentemente, um dos meus livros terá entrado no mundo da pirataria, estando já a ser copiado e distribuído em diversos sites sem autorização prévia. Trata-se do livro de poesia É preciso calar o monólogo que, por acaso, decidi recentemente disponibilizar a título gratuito em diversas plataformas digitais.

Sei que nos tempos que correm a poesia não é propriamente é um tipo de literatura mainstream, pelo que, no caso do livro em questão, confesso que me sinto até honrado por estar a merecer esse inesperado interesse da parte de potenciais leitores.

O meu objetivo primordial na publicação do livro É preciso calar o monólogo sempre foi o de estimular uma bidirecionalidade da comunicação literária, partilhando com o leitor o direito ao espaço criativo. Relanço por isso o desafio que sempre esteve subjacente a essa obra: leiam o livro e escrevam de volta (o livro inclui um endereço de email para isso mesmo).

Um ano de vendas de ebooks

Há cerca de um ano, decidi pegar nos meus livros e republicá-los sob a forma de ebooks, devidamente adaptados aos novos dispositivos de leitura, como o iPad, o iPhone, o Kindle ou o Kobo. Por acreditar que o futuro dos livros passa realmente pela migração para o suporte digital, este projeto já não incluiu a tradicional publicação em papel, mas somente a edição digital dos referidos livros. Decorrido um ano, é chegada a altura de fazer um pequeno balanço do caminho percorrido…

A primeira grande curiosidade que eu tinha, no início, era qual dos meus livros teria mais procura. Ao fim de um ano, o balanço de vendas (que não inclui nenhum dos livros oferecidos gratuitamente no Natal ou noutras campanhas) permite-nos observar a seguinte proporção:
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É fácil perceber que estes três livros de narrativa têm cativado muito mais leitores do que a minha única obra de poesia publicada até ao momento. Algo que não é particularmente surpreendente, já que mesmo no mercado tradicional dos livros em papel, a poesia sempre tem sido uma espécie parente pobre, em termos de vendas. Como não esperava fazer fortuna e me interessa muito mais que os meus poemas sejam lidos por quem goste de poesia, decidi há dias tornar definitivamente grátis o livro É preciso calar o monólogo.

Entretanto, a observação da evolução nas vendas tem sido uma constante aprendizagem. Por exemplo, no que se refere à importância do título e da capa para o sucesso de um livro. As Confissões de Dulce é o meu livro mais vendido deste ano, e se havia algo que o distinguia dos restantes era a capa e, talvez, o título. Já o Manual de Trigonometria Aplicada, um livro porventura até mais trabalhado em termos literários, tem sofrido em termos de vendas por se apresentar com uma capa menos apelativa e um título ambíguo e, quiçá, assustador. Se fosse hoje, decididamente, daria outro título a esse livro – e talvez venha mesmo a atualizá-lo, quem sabe...

A outra grande curiosidade que eu tinha era sobre qual a plataforma onde as vendas de ebooks seriam mais significativas. Confesso que tinha uma grande expetativa relativamente à Kindle store, que acabou por sair frustrada, como se pode avaliar pelo gráfico abaixo, que retrata a distribuição de vendas por plataforma durante estes 12 meses.
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Para contextualizar, convém lembrar que o mercado de ebooks ainda está a começar em Portugal, no Brasil e em muitos outros países. A iBookstore abriu em Portugal em finais de setembro de 2011, tornando-se assim a Apple o primeiro gigante mundial da área dos ebooks a iniciar operações no mercado português. Já no Brasil, a sua atividade começou apenas em outubro deste ano. Mais recentemente, há cerca de um mês, a Kobo começou a distribuir os seus dispositivos em Portugal, através da Fnac, estando neste momento a ser feita também a sua introdução no Brasil, através da Livraria Cultura. Há também algumas lojas de âmbito nacional, como a Wook (Portugal) ou a Saraiva (Brasil) que vendem ebooks on-line, sem contudo os promoverem no contexto de um e-reader próprio. Não conheço os números, mas tudo parece indicar que a quota de mercado da iBookstore e dos seus concorrentes internacionais deverá ser substancialmente superior.

A grande ausência, tanto em Portugal como no Brasil, continua a ser, de forma notória, a Kindle Store, da Amazon. Não deixa de ser um tanto ou quanto surpreendente que, apesar de a Kindle Store americana vender ebooks para clientes portugueses e brasileiros, tenha sido a canadiana Kobo a trazer em primeiro lugar os leitores com ecrã e-ink. Os livros da Kindle Store, é certo, podem ser lidos noutros dispositivos, como é o caso do iPad e do iPhone, ou até mesmo através de uma web app na Internet. Mas a verdade é que, pelo menos em Portugal, grande parte dos títulos têm o seu preço inflacionado relativamente a outros países e relativamente às lojas concorrentes. Tomemos o exemplo do meu Manual de Trigonometria Aplicada: os preços para este livro foram definidos globalmente em 1.89 dólares, para todas as lojas, incluindo Smashwords, iBookstore, Kindle, Kobo, etc. Em Portugal, temos neste momento esse livro ao preço de 1,99 € na iBookstore e 1,78 € na loja Kobo. Mas se pretendermos comprá-lo pela Kindle store americana (que é a divisão que atualmente serve Portugal), deparamo-nos com uns surpreendentes 4,47 dólares (aproximadamente 3,46€). Já em países como Espanha, onde a Amazon já disponibiliza uma Kindle store local, é possível adquirir este mesmo livro por apenas 1,53 €.

O ano 2013 vai ser decisivo. Se por um lado, continuamos com a famosa mas não formosa Crise a espreitar a cada momento, temos por outro lado pela primeira vez à venda no mercado uma variedade interessante de dispositivos de leitura de ebooks e duas das maiores lojas internacionais de ebooks a operar no mercado português e no mercado brasileiro. Será que essa concorrência irá trazer frutos, em termos da divulgação do livro digital nesses dois territórios? Espero que sim, e que isso se traduza num proporcional aumento de leitores e de leituras.

A finalizar, resta apenas dizer que a experiência tem valido sobretudo pela aprendizagem e pela oportunidade de partilhar e contactar com alguns leitores e com outros autores. Apesar de algumas simpáticas incursões pelos tops de vendas nacionais, ainda não fiquei extremamente rico. Ou melhor, ainda não fiquei coisíssima nenhuma. Os trocos que amealhei até ao momento com a venda dos livros serviram para me pagar as poucas despesas deste projeto e talvez um ou dois cafés. Obviamente, estou profundamente grato a todos os que têm comprado os meus livros. E mais grato ainda aos que, para além de os comprar, tiveram também a coragem de os ler do início ao fim.

E agora, é hora de olhar em frente. Na calha, tenho dois livros em estado embrionário. Vamos ver o que sai dali...

Depois da #SOPA, da #PIPA e do #PL118, temos agora a polémica censura de livros pelo Paypal

censurado

O Paypal instituiu recentemente novas condições de serviço que têm como consequência direta a censura dos livros que podem ser comercializados online, com base em critérios de suposta moralidade mais ou menos arbitrários. Em causa está um ultimato feito estes dias à Smashwords, uma importante plataforma de publicação para escritores independentes (que eu venho também utilizando enquanto autor), em que a Paypal obriga o site a eliminar as obras que contenham conteúdos que possam de alguma forma ser considerados obscenos.

Confesso que sempre alimentei a ilusão inocente de que este tipo de ameaças à liberdade de expressão era uma coisa do passado. Que já lá iam os tempos em que se ocultava certas partes d’Os Lusíadas e se proibia a leitura e a distribuição de certos livros. Nas modernas democracias, em que a liberdade de expressão é um direito dado por adquirido, vemos afinal que a censura encontra outros meios que não o célebre lápis azul. Pelos vistos, nos EUA, existe legislação que protege os cidadãos de atos de censura como estes, mas só quando sejam perpetrados pelo Estado. As empresas privadas, como sejam os gigantes financeiros de crédito que supostamente estarão por trás desta medida imposta pelo Paypal, estão legalmente autorizadas a banir certas obras, com base nos critérios que bem entendam. Como?: utilizando o seu monopólio na área dos pagamentos eletrónicos para determinar o que pode ou não ser lido.

Para que possamos compreender a gravidade da situação, digamos que com a ambiguidade ou subjetividade das regras impostas, algumas das grandes obras da literatura universal poderiam facilmente ser banidas pela Paypal, caso fossem escritas por autores independentes e distribuídas por algum dos inúmeros parceiros de negócios da Paypal. Assim de repente, vêm-me à memória obras como “Os Maias”, de Eça de Queirós; “Os Lusíadas”, de Camões; a literatura erótica de Bocage e de tantos outros; a Bíblia, que também tem as suas passagens grotescas ou com referências a relações incestuosas; ou a “Lolita”, de Vladimir Nabokov. É um cenário orwelliano, mas menos distante do que seria desejável. Recorde-se, por exemplo, que já em 2010 o Paypal fez algo semelhante com o site Wikileaks.

Ainda que possamos reconhecer que no catálogo da Smashwords e de outros sites afetados haverá muitos títulos de qualidade duvidosa e com capas de fraco gosto, e mesmo que muitos deles utilizem linguagem ou descrições que possam ferir suscetibilidades de certos leitores, o certo é que a própria Smashwords dispõe de um filtro que os utilizadores podem facilmente ativar, para evitar o confronto com os conteúdos menos próprios. Por outro lado, para usar um cartão de crédito - associado o não a uma conta Paypal -, uma pessoa precisa de ser maior de idade - o que basicamente significa que se trata de uma pessoa capaz de pensar pela sua própria cabeça e preparada para escolher quais os livros que quer ler.

Pessoalmente, não tenho qualquer receio de que os meus livros se encontrem ameaçados - quando muito, apenas a sua distribuição pelo canal da Smashwords seria afetada. No entanto, não posso deixar de me sentir indignado com esta ação de uma grande empresa que eu sempre julgara como sendo idónea e imparcial. Parece que algumas das piores práticas medievais ou ditatoriais estão de volta, mas com nova roupagem…


Alguns links para páginas sobre este assunto:


Contra o absurdo #PL118, marchar, marchar!

pl118

Depois de refletir longamente sobre os meus sentimentos acerca do que se tem dito e escrito sobre o PL118 (também conhecido como projeto de “Lei da Cópia Privada”), acabo de assinar a petição online: "Impedir a Taxação da Sociedade da Informação". Concordo com esta petição e acho que muitos de vocês também poderão concordar.

Enquanto autor, com interesse particular na área da literatura em formato digital (afinal de contas, seria eu um dos supostos principais interessados nesta lei, não é mesmo?), não posso senão DISCORDAR da forma como se pretende legislar este assunto.

Entre muitos outros motivos, destacaria que a Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) e instituições afins não me representam enquanto autor, logo não têm a meu ver qualquer autoridade ou competência para ir extorquir dividendos automáticos eventualmente oriundos do armazenamento e distribuição das minhas obras. Para isso, roubo por roubo, sinceramente prefiro que os meus ebooks sejam piratados por quem se interesse por lê-los.

Para quem não acompanhou a polémica ou não conhece os detalhes, recomendo vivamente a consulta do blog da Maria João Nogueira (Jonasnuts), onde é possível encontrar muita informação e ligações para algumas das notícias na Comunicação Social e artigos em blogs sobre o assunto.